Terremoto, avalanche, enxurrada: entenda o efeito em cadeia por trás da pior tragédia em dez anos no Nepal

  • 26/08/2026
(Foto: Reprodução)
Pessoas fogem de deslizamento de terra na fronteira do Nepal com o Tibete Uma avalanche repentina na fronteira entre o Nepal e o Tibete nesta quarta-feira (26) deixou mortos e centenas de desaparecidos. Vídeos mostram cenas assustadoras: a onda de lama desce o vale arrastando pontes, cobrindo um prédio e engolindo vilas na área turística da região. É a pior tragédia na região em mais de dez anos. Encaixado entre a Índia e a China, o Nepal abriga oito dos 14 picos mais altos do mundo. A região faz parte da cadeia do Himalaia, uma das maiores do planeta, que concentra a grande maioria dos cumes mais altos da Terra — incluindo o Everest. A causa do desastre ainda é analisada. A agência nacional de desastres confirmou que houve "uma avalanche de neve e rochas". Horas antes, um terremoto atingiu a região, mas ainda não está claro como os dois eventos se conectam. Porém, segundo especialistas, parte da própria geografia explica o que pode ter acontecido. Um relevo de montanhas extremas, vales estreitos e geleiras que armazenam não só neve, mas também água líquida em seu interior — uma combinação que ajuda a entender por que uma avalanche na região pôde se transformar em um desastre de tamanha escala. O g1 ouviu especialistas que analisaram os documentos oficiais já divulgados, imagens de satélite de antes e depois e analisam o efeito em cascata quTerremoto, avalanche, enxurrada: entenda o efeito em cadeia por trás da tragédia no Nepale pode ter levado a um desastre dessa dimensão. Uma geleira que também é reservatório de água Pelas imagens de satélite, dá para identificar com clareza a área de onde partiu a avalanche, numa encosta glacial na fronteira entre os dois países. Segundo os especialistas ouvidos pelo g1, duas condições prévias ajudam a entender o cenário em que o desastre ocorreu. Região com setas vermelhas mostra área onde desastre começou Divulgação A primeira é a própria estrutura do ambiente glacial: ao contrário do que a paisagem sugere, aquelas geleiras não são só gelo. Elas armazenam água líquida em diferentes camadas. A segunda é o período do ano: a região vive atualmente a monção, estação chuvosa que costuma elevar o volume de água acumulada nos sistemas glaciais. Houve chuva persistente nos dez dias anteriores ao desastre na região, além de precipitação moderada a forte no sul do Tibete — o que pode ter aumentado o volume de água já disponível na bacia do rio Trishuli antes mesmo da avalanche. Juntas, essas duas condições — água armazenada na geleira e chuva acumulada na região — compõem o cenário em que a avalanche ocorreu, mesmo que sua causa exata ainda não tenha sido determinada. "A gente tinha um registro de chuva anterior que pode ter feito acumular água nessas geleiras. Isso transbordou e desceu com muita intensidade", explica Aderson Farias, sismólogo e coordenador do laboratório sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Como a avalanche vira uma represa natural? O evento que deu início à sequência foi uma avalanche de gelo, neve e rocha, cuja causa ainda é desconhecida. Ao descer pela encosta, a massa arrastou sedimentos e blocos de rocha até atingir o rio Trishuli, provocando uma obstrução parcial ou total do curso d'água e formando uma barragem natural. Uma combinação de imagens de satélite mostra os vales perto da fronteira entre o Nepal e a China em 25 de agosto de 2026, antes das inundações devastadoras (T), e em 26 de agosto de 2026, após o desastre (B). Reuters Represada, a água começou a se acumular rio acima. Com o volume crescendo, a pressão sobre essa barreira improvisada também aumentou, até o ponto em que a água passou a transbordar com pressão, arrastando tudo que tinha pela frente. "É como se você abrisse uma comporta: o que estava embaixo começa a descer. É uma água com um poder destrutivo que torna o desastre mais letal ainda", explica Pedro Camarinha, especialista em desastres naturais. GIF - destruição na fronteira do Nepal com o Tibete Reprodução/ g1 As imagens do desastre são impressionantes: um volume massivo de água e lama que desce montanha abaixo, com um rio violento que cobre vilarejos, enquanto pessoas tentam correr. Até a publicação desta reportagem, mais de 90 pessoas tinham sido encontradas mortas. Porém, outras centenas ainda estavam desaparecidas. "Isso causa uma cheia repentina, sem que ninguém pudesse se preparar para esse volume de água", explica Gerardo Portela, especialista em gerenciamento de riscos. Autoridades do Nepal e do Tibet disseram que o desastre não foi captado por suas ferramentas de risco. E qual é o papel do terremoto? Horas antes do desastre, um terremoto de magnitude 4,4 e com 10 quilômetros de profundidade foi registrado. Os especialistas apontam que ainda não há como dizer com certeza, mas há uma suspeita de que tenha relação com a ruptura do barramento que causou a enxurrada.

FONTE: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/08/26/terremoto-avalanche-enxurrada-entenda-o-efeito-em-cadeia-por-tras-da-pior-tragedia-em-dez-anos-no-nepal.ghtml


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