Canhotos adaptam instrumentos e aprendem a tocar viola em projeto no interior de SP

  • 20/09/2026
(Foto: Reprodução)
Canhotos adaptam instrumentos e aprendem a tocar viola em projeto no interior de SP A paixão pela música ou a vontade de começar um novo hobby podem se tornar um desafio, principalmente quando, para desenvolver a atividade, é preciso utilizar as mãos. No caso de pessoas canhotas, tocar instrumentos de corda pode levar ainda mais tempo, já que eles geralmente são fabricados para pessoas destras. No entanto, isso não impediu que alunos de um projeto que incentiva a cultura caipira em Presidente Prudente (SP) se dedicassem às aulas. E, para entender como o cérebro funciona, o g1 conversou com uma neurologista, que traz mais detalhes sobre o assunto. 📲 Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp Canhoto nato, o policial militar aposentado Arlindo Dionísio Júnior, de 55 anos, encontrou na música uma forma de manter a “cabeça ativa”. Ele ingressou no projeto Canta Viola em janeiro deste ano e, para conseguir tocar os instrumentos, trocou a ordem das cordas. “Uma das coisas que me motivou a aprender foi o fato de minhas filhas terem aprendido a tocar violão desde crianças, então eu queria tocar junto com elas. Apesar de incentivá-las muito, naquele tempo eu mesmo não tinha vontade de aprender.” Na família, além de Arlindo, a irmã mais velha também é canhota. No caso dele, algumas atividades com a mão esquerda se tornam essenciais, como a escrita, para torná-la mais legível. Canhotos adaptam instrumentos e aprendem a tocar viola em Projeto Canta Viola, de Presidente Prudente (SP). Arlindo Dionísio Júnior/Arquivo pessoal Para seguir na música, Arlindo encomendou uma dedeira para canhoto, que vai auxiliar nos acordes mais específicos. Feita sob medida para ele, a peça é necessária porque a tradicional, feita para destros, machuca o dedo com o tempo. “Como canhoto nato que sou, sempre driblei as dificuldades, me ajustando a tudo. Desafios surgem o tempo todo, por exemplo, o material de estudo da viola, que é todo preparado para pessoas destras. Vou adaptando e, no final, dá tudo certo. Isso não afeta a minha relação com a música”, descreve. A ideia da dedeira para canhoto foi colocada em prática pelo pai de Heitor Mariano Schisbelgs, de 17 anos. O rapaz também é aluno do projeto de viola de Presidente Prudente. “A música, para mim, é onde posso fazer as coisas sem pensar muito, onde consigo relaxar, onde posso extravasar e desestressar.” Sendo o único canhoto na família, Heitor se acostumou a tocar o instrumento com a mão direita e se tornou ambidestro com o tempo em algumas atividades. “Acabei me acostumando a tocar a viola já com o lado mais comum para não ter dificuldades no aprendizado.” Como o cérebro funciona A neurologista Stella Kawano Zaupa detalha como o cérebro funciona. De modo geral, tanto quem usa a mão esquerda quanto quem usa a mão direita, ou as duas, tem os dois hemisférios trabalhando juntos, mas cada um comanda principalmente o lado oposto do corpo: o hemisfério esquerdo controla o lado direito, e vice-versa. “Em um destro, a mão dominante responde ao hemisfério esquerdo; no canhoto, é o contrário. A linguagem é um pouco diferente disso. Na maioria dos destros, ela fica concentrada no hemisfério esquerdo.” Já nos canhotos há mais variação, segundo a médica especialista. “Uma boa parte também tem esse predomínio à esquerda, outros dividem entre os dois lados, e uma minoria tem predomínio à direita.” No caso dos ambidestros, eles conseguem usar as duas mãos com desempenho parecido. “Mas isso é raro de verdade, e não quer dizer que o cérebro deles seja simétrico”, reforça a neurologista. Canhotos adaptam instrumentos e aprendem a tocar viola em Projeto Canta Viola, de Presidente Prudente (SP). Reprodução Adaptação ao 'mundo' destro A sensação de ter que se adaptar mais à realidade por ser canhota também ocorreu com Camila Mincucine Gava, de 37 anos. No caso da personal trainer, que também participa das aulas de música, a dificuldade foi diminuindo com o tempo. Além dela, um irmão também é canhoto. “Ser canhoto é ter que se adaptar a tudo, já que tudo é feito para destros. Acredito que eu não tenha desafios em relação a tocar instrumentos por ser canhota; também acredito que não afete a minha relação com a música hoje, mas, ao iniciar lá atrás, quando era adolescente, era mais complexo devido à habilidade de coordenação motora fina”, relembra. LEIA TAMBÉM: ‘A sorte está por aqui’: moradores de Presidente Venceslau contam o que fariam se levassem R$ 101,9 milhões na Mega-Sena VÍDEO: força-tarefa ajuda onça-pintada a deixar rodovia e voltar para área de mata no interior de SP Cão surge em camarim de Zezé Di Camargo em Presidente Prudente e é adotado: 'Impossível não me apaixonar' Cadela é adotada por cartório eleitoral, ganha crachá e vira 'servidora pet' no interior de SP Nádia Hely Cruz Garcia, de 37 anos, é supervisora administrativa e participa do projeto Canta Viola há um ano e oito meses. Ela também sentiu dificuldades no aprendizado por ser canhota. “Ser canhota sempre foi um desafio em questão de música, porque a maioria dos instrumentos é feita especialmente para destros. Porém, a viola, em especial, eu me desafiei, mesmo sendo canhota, a tocar na posição de destra, e isso leva um tempo um pouco maior para nos acostumarmos, mas nunca desisti, e hoje eu consigo.” Ter uma mão dominante é normal, conforme a neurologista Stella Kawano Zaupa. No dia a dia, o cérebro se organiza e depende das duas mãos trabalhando juntas, cada uma com seu papel. “Não faz sentido treinar alguém para virar ambidestro. O que importa é que o desenvolvimento motor esteja adequado e a pessoa consiga usar bem os dois lados do corpo. E não se deve forçar uma criança canhota a escrever com a direita. O ideal é deixar a lateralidade se manifestar sozinha”, reforça a especialista. Canhotos adaptam instrumentos e aprendem a tocar viola em Projeto Canta Viola, de Presidente Prudente (SP) Camila Mincucine Gava/Arquivo pessoal Professor desconstruiu padrões Como professor do projeto Canta Viola, Haroldo Lobo Garcia, de 44 anos, incentiva os alunos a tocarem o instrumento da maneira que se sentirem mais confortáveis, sem seguir uma regra. “Cada aluno canhoto que passa por aqui me ensina a ser um professor e uma pessoa melhor. Já passei, por exemplo, pelo processo de desconstruir padrões de ensino mais comuns e precisei aprender a ensinar do jeito deles, orientado pelas pessoas canhotas.” No início da carreira, o professor de música sentiu a necessidade de se reinventar para melhorar o processo de ensino e aprendizagem com pessoas canhotas. Após mais de 10 anos dando aula no projeto, ele consegue ver a diferença. “Os instrumentos são feitos para a maioria destros, mas hoje fazemos com tranquilidade as adaptações. A criatividade, a expressão, o sentimento, não têm lado. Todos nós podemos nos reinventar e fazer bonito. Não existe um único jeito de abraçar a viola; existe o jeito que sai do coração. A viola, além de ser o instrumento de cordas dedilhadas mais fácil de aprender, não pertence a quem é destro, pertence a quem quer tocar”, ressalta. Canhotos adaptam instrumentos e aprendem a tocar viola em Projeto Canta Viola, de Presidente Prudente (SP) Heitor Mariano Schisbelgs/Arquivo pessoal Mitos e verdades Como médica especialista em neurologia, Stella Kawano Zaupa reforça que ser canhoto é uma característica de como o sistema nervoso se organiza, não uma doença nem uma limitação. Além disso, usar uma mão com mais frequência que a outra não traz risco de perder a mobilidade com a idade. “O que existe é uma questão prática: como a maioria dos objetos e ambientes foi pensada para destros, o canhoto às vezes precisa se adaptar mais. Isso está mudando e hoje há bem mais produtos pensados para canhotos do que antes”, pontua. A especialista destaca outros mitos e verdades a respeito de pessoas canhotas: 👋 “Canhotos usam mais o lado direito do cérebro e, por isso, são mais criativos”: MITO. Criatividade e inteligência dependem de redes que envolvem os dois hemisférios; não dá para reduzir isso a “lado criativo x lado racional”. 👋 “Canhotos têm o cérebro invertido”: MITO. Existem diferenças em como algumas funções se organizam, mas não é um espelho simples do cérebro destro. 👋 “Ser canhoto tem influência genética”: VERDADE, embora não seja determinante sozinha. 👋 “Canhoto precisa aprender a usar a mão direita”: MITO, e sem nenhum benefício em forçar essa troca. 👋 “É normal ter uma mão mais habilidosa que a outra”: VERDADE. Isso vale tanto para destros quanto para canhotos. 👋 “Ser ambidestro é melhor para o cérebro”: MITO. Não há nada que mostre um cérebro “mais desenvolvido” por causa disso, segundo a neurologista. Ser destro, canhoto ou ambidestro faz parte da variação normal do desenvolvimento, conforme a especialista. Para os pais, o conselho de Stella é observar a criança e deixar a preferência manual aparecer sozinha, sem tentar antecipar ou mudar isso. “Se alguém que sempre usou bem uma das mãos começa a ter dificuldade, fraqueza, falta de coordenação ou passa a evitar um lado do corpo, principalmente se isso surge de forma repentina, não é ‘mudança de lateralidade’, é sinal de alerta e precisa de avaliação médica”, completa. A médica neurologista Stella Kawano Zaupa, de Presidente Prudente (SP) Stella Kawano Zaupa/Arquivo pessoal Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Presidente Prudente e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-e-regiao/noticia/2026/09/20/canhotos-adaptam-instrumentos-e-aprendem-a-tocar-viola-em-projeto-no-interior-de-sp.ghtml


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